16 de dezembro de 2011

Ser pai

Sou pai ou papá. Hoje tento compreender o significado desta palavra. Uma palavra que oiço várias vezes ser proferida pela minha filha. È uma palavra que trouxe e acarreta uma nova responsabilidade. Ser pai significa ser responsável por alguém que não pediu para existir, mas que exige ser educado, tratado, acarinhado e por vezes repreendido. Esse alguém que é nosso filho e que sempre que ouvimos a palavra pai o nosso instinto reage, para tentarmos perceber o que precisa o nosso filho. Será que tem sede, fome, precisa de mudar a fralda, magoou-se, surgem infindáveis questões que tentamos responder em segundos. Por vezes o nosso filho apenas precisa que olhemos para ele, mas deve ser um olhar atento, cuidado, pois os nossos filhos têm sempre algo a ensinar-nos. Devemos por vezes, apenas observar, deixar os filhos serem eles próprios, percebermos como é o nosso filho, a sua personalidade, o seu temperamento emocional, como se relaciona com o mundo que o rodeia. È fantástico observar o nosso filho a descobrir-se no mundo. Um dia observei a minha filha, apenas a ela e mais nada. Coloquei-a no centro da minha vida e da minha atenção. Queria conhecê-la melhor, perceber como ela interage com o que a rodeia e com ela própria. Observei-a a explorar as suas mãos. Olhava as suas mãos com delicadeza, com espanto e emoção, com alegria. Observava cada dedo, cada unha, cada poro das suas mãos. E rodava as suas mãos, ora para cima, ora para baixo, observando de cada vez algo novo. Fiquei fascinado por poder partilhar este momento de auto conhecimento da minha filha, algo que nós adultos com a idade esquecemos, aprender a observar as coisas mais simples da vida. Este momento único de partilha com a minha filha, permite-me conhecê-la melhor, perceber que ela precisa de espaço e de ajuda no seu crescimento. Adoro ver a alegria e felicidade que transbordam da face da minha filha. Tento todos os dias transmitir paz, tranquilidade e felicidade na tentativa de possibilitar um crescimento saudável e de felicidade interior, para que ela se sinta sempre bem com ela própria. Quando oiço a minha filha chamar pelo pai ou papa, sinto uma alegria imensa no meu interior, sinto uma injecção de felicidade, pois significa que ela precisa de mim e eu claro preciso dela. Já não consigo passar um dia sem deixar de pensar na minha filha, ou seja a todo o tempo. Quando a minha filha me abraça, o meu instinto é abraça-la também, mas é um abraço não só de carinho, mas também de protecção. É um momento em que tento protegê-la do ambiente nocivo que nos rodeia, é um momento de partilha de afectos. Dou-lhe um abraço que a rodeia no seu todo, como que não permitisse que mais ninguém interfira com este momento. Sinto no meu coração o calor do seu abraço, deste momento de carinho, de amor entre um pai e um filho.
São vários os momentos em que observo com atenção o mundo em que vive a minha filha. O seu mundo de descoberta. No outro dia, durante o seu banho diário, decidi por música. Adorei ver o sorriso que ela me devolveu quando ouviu a música. Eleva o seu dedo junto ao ouvido e chama por mim, como que para me alertar que um novo som vem de algures. E ela com a sua perspicácia embala o seu corpo ao som da música deixando-se levar pela sua melodia. Os seus movimentos são leves e harmoniosos e permitem-na desfrutar de um momento novo, de algo que com os seus sentidos lhe permite estar mais atenta ao que a rodeia. Sempre que a música acaba ela faz questão de me avisar, elevando novamente o dedo junto ao ouvido, e de seguida abre os seus braços como que a dizer que existe um vazio no ar, um vazio nos sentidos que a música tinha preenchido. Outros momentos há, em que a minha filha me chama pai ou papá, pois precisa de mostrar algo novo que aprendeu. Um desses momentos aconteceu no carro quando ao som da música que corre na rádio, ela decide dançar. E efusivamente chama o papá, que vai a conduzir, para olhar para ela e ver que aprendeu novos movimentos corporais, a que nós chamamos de dança. Uns movimentos atabalhoados, desconcertados, mas que a vê-la fazê-los, são algo de gracioso de belo, que me fazem sorrir e retribuir com uma salva de palmas e um incentivo para que continue. Ela ficou radiante com a sua demonstração e continua a chamar o papá, que tem de se concentrar em conduzir e ao mesmo tempo dar atenção à sua pequena bailarina.
Todos os momentos que passo com a minha filha são raros. São momentos de partilha, de aprendizagem, de conhecimento, que apenas podem ser vividos no presente, no agora, pois depois de passarem, apenas poderá ficar a memória. Ser pai para mim é poder amar incondicionalmente a minha filha, que passou a fazer parte da minha vida. A minha filha preenche o vazio que existia, agora sinto-me completo por poder ajudá-la no caminho difícil da vida.
Ser pai é o caminhar no desconhecido, é o descobrir novas formas de ensinar, de incentivar, de educar, pois educar um filho é difícil e ingrato. Várias são as vezes que como pai me interrogo se estou a ser um bom pai, se estou a educar bem, se tomei as atitudes certas, se estou a transmitir bons valores à minha filha. Não no sentido de ter medo, mas sim no sentido de aprender com o que faço e melhorar todos os dias, pois sei que se der o melhor a minha filha no futuro vai agradecer. Dou o melhor, sabendo contudo, que podemos tentar ser sempre melhores e que estamos todos os dias a aprender. A minha filha dá-me lições de vida todos os dias, ensina-me a estar atento aos pormenores, a ser mais sensível, pois ela assim o exige. Sempre que penso na minha filha, esboço um sorriso, pois a sua imagem surge logo na minha cabeça, os problemas desaparecem e fico apenas eu e a sua imagem, e um calor reconfortante abraça o meu coração. Já sinto a sua falta. Que bom que é ser chamado de pai ou papá. Significa que existe alguém que se encontra ligado a mim, faz parte de mim, parte do meu ser.
Brinco com a minha filha revelando eu próprio a criança que ainda permanece dentro de mim. Assim posso dizer que brincamos quase no mesmo patamar. Nestes momentos considero-me uma criança, mas mais crescida, pois a responsabilidade está do meu lado para permitir que a minha filha, ela sim, possa brincar sem restrições, livre, para dar azo à sua imaginação e viver no seu mundo encantado.
Mas brincar implica um olhar atento às suas necessidades, às suas indicações, para percebermos o seu mundo. As suas brincadeiras fazem-me rir, tal é o seu entusiasmo. Brinca com tudo o que aparece à frente, pode ser uma panela, uma mola da roupa, uma simples pedra ou a água dentro de um balde. Tudo serve para explorar o mundo que a rodeia. Mais uma vez, o papá é chamado a participar nos seus jogos, nas suas brincadeiras, tenho de entrar no seu mundo imaginário e observar a sua energia e alegria contagiante.
Já perdi conta às vezes que a minha filha diz papá, aprecio apenas as diferentes entoações com que o diz. Ora é efusiva quando quer mostrar algo, ora é melancólica quando está triste, ou por vezes o diz com excitação quando quer que o pai lhe mostre alguma coisa como ver a tartaruga, ou andar de triciclo ou de bicicleta.
É bom ser papá de alguém, a minha filha revolucionou a minha vida, deu-lhe mais sentido, mais interesse, mais significado.
Antes de termos filhos pensamos que a paciência tem limites, mas quando um filho nasce, esses limites que até então tínhamos, deixam de existir e a mesma paciência é testada até à exaustão. São as brincadeiras sem fim, as birras que começam a surgir, a hora de dormir que nunca mais chega e quando pensamos que está a acalmar regressa o furacão. O papá já está com sono, mas é novamente chamado para mais uma brincadeira, já fora de horas, e é impossível resistir a tão, doce chamar. Brevemente vai dormir, não sem antes chamar novamente pelo papá para ter a certeza que ainda ali se encontra. Está a dormir, mas já estou ansioso que a minha filha acorde para a ouvir dizer papá.